O que fundou a empresa ainda vale?

Toda empresa tem uma data oficial de abertura. Mas a história, na prática, começa antes do CNPJ: começa quando alguém se deixa convocar por uma causa, reúne gente, faz acordos “no olho” e aposta num caminho que ainda não está pronto.

Na ILK, costumamos diferenciar dois tempos que ajudam muito quem vive sucessão, reestruturação ou transição de liderança: fundação e constituição. A fundação é o tempo do desejo que inaugura, o “vamos” que cria um antes e um depois. A constituição vem mais tarde, quando essa história pede forma: regras, papéis, combinados, estatuto, método. Esse segundo tempo será tema do Artigo 2.

No início, quase sempre, a empresa nasce de um gesto simples e decisivo: alguém reconhece um problema real, sente que não dá mais para “seguir como está” e faz uma aposta. Muitas vezes isso acontece na cozinha de casa, na garagem, num pequeno galpão, numa conversa entre irmãos ou amigos. É aí que surgem os primeiros laços e o alicerce invisível que, depois, vira cultura.

Freud nos lembra que ninguém se explica só pelo que diz conscientemente: existe algo do inconsciente que atravessa escolhas, repetições e modos de se relacionar. Em empresas, isso também aparece. Há estilos de gestão, pactos silenciosos e formas de lidar com autoridade e conflito que não estão no papel, mas comandam o dia a dia.

Lacan aprofunda esse ponto ao mostrar que o desejo não nasce isolado: ele se tece no laço, no campo do Outro. Traduzindo para o mundo do trabalho: ninguém funda uma empresa sozinho. Ela nasce também do olhar do entorno, da família, mercado, primeiros clientes, a cidade onde está inserida. É nesse encontro que se desenha o que eu chamo de alma da empresa: uma marca que vai muito além da identidade visual, porque carrega um jeito singular de existir e de sustentar seu fazer.

Por isso, valorizar a origem não é nostalgia. É localização. É voltar ao ponto de partida para entender o que ainda sustenta, e o que, hoje, pede revisão.

Algumas perguntas abrem esse trabalho com profundidade e sem culpabilizar ninguém:

  • De onde viemos, de verdade?
  • Que falta nos moveu?
  • Que problema queríamos resolver?
  • Que risco estávamos dispostos a correr?
  • O que não pode se perder, porque é o “nome próprio” da empresa?

Essas perguntas tocam o que nos funda e, ao mesmo tempo, iluminam os desafios que produzem movimento no presente. Muitas vezes, aquilo que hoje incomoda, conflitos de geração, ruídos de comunicação, disputas de lugar, dificuldade de passar o bastão, tem raízes em decisões antigas que nunca foram nomeadas. Quando não se nomeia, repete-se. Quando se reconhece, reposiciona-se.

É por isso que tantas leituras sobre empresas familiares insistem na importância de tratar sucessão como um processo que envolve técnica e emoção: história, pertencimento, medo, expectativa, reconhecimento. Quando isso entra na conversa com método, a empresa ganha mais clareza de identidade e mais condições de atravessar mudanças sem se perder de si.

No fim, a pergunta que abre caminho para o futuro é simples e profunda:

Que desejo nos fundou, e como ele ainda fala, ou tenta falar, na empresa que temos hoje?

Quando essa resposta aparece, a história deixa de ser peso. Vira alicerce.

Izabel Ludwig
Psicanalista e Consultora

Para se aprofundar (leituras sugeridas)

  • FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920) e Psicologia de grupo e análise do ego (1921) — textos fundamentais sobre laço, identificação e vida coletiva.
  • LEBRUN, Jean-Pierre. Clínica da instituição: o que a psicanálise contribui para a vida coletiva.
  • IBGC. Sucessão familiar deve considerar aspectos emocionais.
  • Sebrae. Sucessão familiar em pequenos negócios.
  • Você S/A (Abril). Por que não abrir um negócio com alguém da família?
  • Exame (Bússola). Família no comando ou CEO de mercado? Desafios na sucessão e na governança familiar.

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